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Crítica cinematográfica do filme Mogli - O Menino Lobo (2016) do Jon Favreau.

2020.08.01 20:03 hebreubolado Crítica cinematográfica do filme Mogli - O Menino Lobo (2016) do Jon Favreau.

Os Livros da Selva é uma coletânea de contos do universo criado por Rudyard Kipling (1865–1936). Os dois Livros somam o total de quinze contos. Este filme adapta (ou ao menos tenta adaptar) de uma forma bastante recortada alguns contos que têm Mowgli como protagonista (importante ressalvar que não são todos os contos de Os Livros da Selva que têm o menino lobo como protagonista, alguns sequer se passam na Selva, ex: A Foca Branca, conto de número 4 na edição Clássicos da Zahar). Eu percebi inspirações no conto “Os irmãos de Mowgli”, o primeiro do universo do Kipling, “A Caçada de Kaa”, que narra o sequestro de Mowgli pelo Bandar-logo, o Povo Macaco, e “Como surgiu o Medo”, o conto mais mitológico em minha opinião, que narra o período de seca da Selva que os animais chamam de Trégua da Água. Em minha crítica, irei estabelecer algumas comparações do filme com a obra original do Kipling com objetivo de defender a opinião de que: enquanto um filme de animação, é um filme muito bem produzido, dirigido e criado, porém, enquanto adaptação cinematográfica de uma obra literária, deixou tanto a desejar, de tal forma que me faz acreditar que trata-se mais de uma adaptação da animação da própria Disney de 1967 do Wolfgang Reitherman do que uma adaptação da obra de Kipling, como veremos mais à frente. Para estabelecer essas comparações, utilizarei o meu exemplar de Os Livros da Selva: contos de Mowgli e outras histórias, da editora Zahar, publicado no ano de 2016, traduzido por Alexandre Barbosa de Souza.
Nota IMPORTANTÍSSIMA: compreendo e sou da opinião de que cinema e literatura são artes distintas e que possuem linguagens diferentes; também concordo que nenhuma adaptação é 100% fiel à obra literária, nem mesmo o tão renomado O Senhor dos Anéis; porém, quando usa-se o nome de um autor como fonte e principalmente sua obra como inspiração, é necessário o devido respeito à propriedade intelectual e criadora, não somente por questões jurídicas, mas por questões éticas. Sob esta premissa, vamos às comparações.
ATENÇÃO: Como trata-se de uma análise do filme, recomendo que a crítica seja lida somente por pessoas que já assistiram o filme. Se você também leu o livro e é um admirador da obra do Kipling e do que ela representa, será uma leitura ainda mais profunda.
O filme tem uma animação muito bonita; não entendo de cinema em termos técnicos, mas sem dúvidas trata-se de uma película bastante agradável de se assistir. Fora a animação de altíssima qualidade, as cores, personagens e músicas fazem do filme bastante agradável de se ver e rápido de assistir também. Incomoda-me em um filme que possui uma proposta infantil (a recomendação aqui no Brasil é para maiores de 10 anos de idade) hajam os famigerados Jump-scare. Imagine você sentado na sala assistindo com seu filho uma cena do Mowgli em um pasto verde e calmo e de repente BAM! Um tigre salta de trás da tela rugindo e fazendo um estardalhaço enorme. O recurso de jump-scare é, até mesmo em filmes adultos como no gênero de terror e suspense, considerado um recurso de baixa qualidade e previsível. Contei ao todo dois jump-scares no filme.
Em uma das primeiras cenas do filme vemos Mowgli, já na idade de menino (idade esta que permanece durante todo o filme. No último conto do Kipling, “A Corrida da Primavera”, ele já possui dezessete anos), assistindo uma assembléia dos lobos, que discutem se sua presença na alcateia deve ou não ser tolerada. Aqui já podemos perceber uma mudança drástica na história original: nos livros, Mowgli simplesmente aparece onde a alcateia Seonee vive, não levado por Bagheera como no filme retrata um pouco mais a frente. Akela e o lobo que criou Mowgli são dois lobos diferentes, não o mesmo: este último aparece nos contos com o nome de Pai Lobo apenas. Akela em hindi significa solteiro, solitário, o que não faz sentido colocá-lo como pai de Mowgli e dono de uma família. A intimidação do tigre Shere Khan provoca aos lobos foge do nosso autor britânico da mesma forma: enquanto que no filme o tigre não apenas mata Akela com um único golpe mas domina toda o bando, nos livros ele é intimidado pelos caninos.
“[…] Shere Khan talvez tivesse enfrentado Pai Lobo, mas não desafiaria Mãe Loba, pois sabia que, ali onde estava, ela tinha a vantagem do terreno e lutaria até a morte. Por isso voltou atrás, rosnando ao deixar a boca da caverna […]” (KIPLING, p. 33).
Bagheera e Shere Khan travam uma batalha durante a escolta de Mowgli em retorno para a vila dos homens; nos livros, essa luta nunca aconteceu.
Ao encontrar com os elefantes, a pantera negra pede para que Mowgli se ajoelhe e o informa da importância desses terríveis elefantídeos na criação e manutenção da Selva. Esse aspecto deve ser parabenizado por ter sido incorporado no filme: Kipling retratou os elefantes como a força criadora da Selva, e sendo Hathi, O Silencioso, o mais antigo deles. Embora a curtíssima cena tenha deixado implícito a importância dos elefantes, senti falta do personagem de Hathi, que é de suma importância em todos os contos que ocorrem na Selva.
“[…] Quando Hathi, o elefante selvagem, que vive cem anos ou mais, viu uma longa e esguia faixa de rocha seca bem no meio do rio, entendeu que estava olhando para a Pedra da Paz e, na mesma hora, ergueu sua tromba e proclamou a Trégua da Água, como seu pai antes dele havia proclamado cinquenta anos atrás.” (KIPLING, p. 185).
“[…] Shere Khan foi embora sem ousar rosnar, pois sabia, assim como todo mundo, que, no final das contas, Hathi é o Senhor da Selva” (KIPLING, p. 191)”.
O antagonismo inexistente de Kaa: a temível Píton é apresentada no filme como uma vilã que, após revelar a história de Mowgli para ele, tenta devorá-lo. Este personagem também foi desconstruído e teve sua personalidade alterada, assim como vários outros, que comentarei mais à frente. Nos livros, a píton é vista como um animal sábio e astuto, mas que respeita Mowgli como o Senhor da Selva que ele se tornou. A primeira vez que ele é mencionado na obra é no conto “A Caçada de Kaa”, aquele citado mais acima, que retrata o sequestro de Mowgli. Percebendo sua incapacidade de perseguir o Bandar-Log, o Povo Macaco, Baloo e Bagheera decidem pedir ajuda à píton em troca de alguns cabritos. Após relembrar Kaa de que o Bandar-log costumava chamá-lo de perneta, minhoca amarela, a pantera e o urso acabam convencendo a píton a se unir à eles na caçada aos macacos para resgatar Mowgli. O antagonismo de Kaa no filme pode ter várias explicações (que infelizmente só nos seriam acessível diretamente pelo diretor ou roteirista), porém, me parece que colocar uma cobra como vilã é um reforço de um esteriótipo medíocre. A cobra malvada. Não, sr. Favreau, isto não existe no universo de Kipling. Muito embora astuto e um caçador destemível, Kaa não apenas ajuda nesse conto em específico como também em “Cão Vermelho”, quando auxilia Mowgli na batalha contra dos lobos contra os cães vermelhos, chamados de dholes (inclusive, é nesse conto que Akela morre devido à feridas causadas na batalha contra os dholes, diferentemente da sua morte estúpida no filme com uma só mordida de Shere Khan, o que nos demonstra uma ideia bastante frágil de um lobo alfa que deveria estar a frente de sua alcateia e portanto, se o mais forte entre todos os lobos. Akela morre com pelos brancos como neve, ressaltando sua idade avançadíssima). Neste conto, Kaa fornece a Mowgli ideias de como combater e sair em vantagem contra os dholes, além de protegê-lo no rio durante o seu percurso e ser também ativo no plano de Mowgli para emboscar os dholes na toca das abelhas, etc etc.
Nem é preciso informar que não, Baloo não salvou Mowgli de ser comido por Kaa em Os Livros da Selva. Ainda no primeiro conto, “Os irmãos de Mowgli”, o Conselho da Alcateia está decidindo o destino do filhote de homem. A Lei da Selva, código de ética e moral que rege a todos os povos livres com exceção do Bandar-log, intercede a favor de Mowgli:
“Pois bem, a Lei da Selva dispõe que, em caso de disputa do direito sobre um filhote a ser aceito pela alcateia, pelo menos dois membros, além do pai e da mãe, devem interceder ao seu favor.” (KIPLING, p. 35). Adivinhe quem fala por Mowgli além dos seus pais lobos? Isso mesmo. O velho Baloo, encarregado de ensinar a Lei da Selva para os filhotes, fala em nome do menino. Sendo assim, falta apenas mais um voto. Baloo era o único fora da alcateia que tinha direito de falar no Conselho; sendo assim, restava convencer um lobo entre a alcateia para que Mowgli fosse aceito.
Porém, não foi isso que aconteceu: Bagheera intercede e, não podendo votar por não ser parte da Alcateia Seonee, argumenta em cima da Lei da Selva:
“ — Ó Akela, ó Povo Livre — ronronou -, não tenho voto na assembléia de vocês, mas a Lei da Selva diz que, não se tratando de um caso de morte, se existe uma dúvida quanto a um novo filhote, a vida dele pode ser comprada por um certo preço. E a lei não diz nada sobre quem pode ou não pagar esse preço. Estou certo?
[…] — Agora, além do voto de Baloo, acrescento um touro, e um bem gordo, que acabei de matar a menos de um quilômetro daqui, para que o filhote de homem seja aceito de acordo com a lei. Seria possível?” (KIPLING, p. 35–36). Oferta esta que o Povo Livre aceitou prontamente. Concluímos, portanto, que Baloo não apenas conheceu Mowgli desde sua chegada na Alcateia Seonee, mas foi o responsável, junto com Bagheera, por sua aceitação na alcateia. Esta alteração no roteiro do filme pode ser explicada pelo fato de que a linguagem do cinema requer algo mais dinâmico e rápido que os detalhes da literatura. Foi a forma do Favreau contar como Mowgli chegou na Selva e introduzir Baloo no filme, dois coelhos em uma cajadada só, como dizem por aí.
“E foi assim que Mowgli entrou para a Alcateia dos Lobos de Seeonee, ai preço de um touro e graças às palavras favoráveis de Baloo.” (KIPLING, p. 37) A ausência nos filmes desse aspecto da história faz com que a obra tenha um déficit e deixe de retratar uma parte bastante importante nos contos de Kipling: as reflexões filosóficas por trás do conto, tais como: o valor de uma vida entre os lobos, o conceito de moralidade (certo e errado), o valor de um homem, a questão da Lei da Selva sendo usada na prática (o que no filme não passa de uns versos engraçados que são recitados em uma decoreba), etc.
A mudança da personalidade de Baloo no filme é o que mais me irrita nessa adaptação: nos contos de Kipling, Baloo é o professor da lei da selva, como citei mais acima, e no filme, quando ele pergunta a Mowgli se os lobos cantam, o menino responde negativamente e recita para ele a Lei da Selva (dialogo que acontece no minuto 40 do filme, aproximadamente) , Baloo responde “Aí, isso não é uma canção. É um monte de regra!” FAVREAU, AMADO??
Transformar o professor da Lei em um urso trapalhão reforça o fato de o filme ser uma adaptação do filme da Disney, como citei mais acima, e acabou empobrecendo o roteiro no que diz respeito aos conceitos profundíssimos que Kipling introduz através de Baloo, desde a importância da sociedade e união (no conto “A Caçada de Kaa”), as lições que acompanharam a educação do garoto desde que ele tinha entre onze e quinze anos e até mesmo os detalhes da própria Lei da Selva, que no filme os lobos simplesmente recitam aos quatro ventos, e nos contos é aprendida desde filhotinhos pela boca do próprio Baloo.
No conto “Tigre! Tigre!”, após Mowgli decidir sair da alcateia e ir para a vila dos homens, realmente Shere Khan influencia os filhotes e habita a Pedra do Conselho, como mostrado no filme, mas esse reinado sobre os lobos dura apenas algumas páginas, ao passo de que quando Mowgli retorna para a Selva (a sua estadia na vila dos homens também foi omitida no filme), acaba dando um jeito no tigre, mas isso trataremos mais a frente.
A cena de Mowgli salvando o filhote de elefante também não existe nos contos. Também me incomoda a incapacidade de falar dos elefantes, visto que todo bicho na selva, na obra de Kipling, tem essa capacidade. Os elefantes são inteligentes como todos os outros e seu líder, Hathi, como já dito mais acima, não apenas era o mais inteligente de todos, mas o verdadeiro Senhor da Selva e criador da própria.
As engenhocas de Mowgli realmente são importantes nos contos, como no filme mostra, mas a motivação do sequestro não foi a Flor Vermelha, tão desejada pelo Rei Louie. Essa cena é tão distante da obra e das intenções do Kipling que merece, mais que todas as outras, ser tratada com mais detalhes:
Primeiro, O REI LOUIE NÃO EXISTE! Uma das características mais importantes do Bandar-log é sua incapacidade de ser organizados socialmente, por isso não têm líder. No filme, criar um personagem e colocá-lo no cargo de líder do Bandar-log acaba desconfigurando o mesmo e também o desconstruindo, o que aconteceu aconteceu com vários personagens, como vimos acima.
“- Escute, filho de homem — rugiu o urso, e sua voz ressoou como o trovão numa noite quente. — Ensinei a você a Lei da Selva inteira, que vale para todos os Povos da Selva, menos para o Povo Macaco que vive nas árvores. Eles não têm lei. São marginais. Não têm fala própria, mas usam palavras roubadas que ouvem por aí enquanto espiam e esperam no alto dos galhos. Os costumes deles são diferentes dos nossos. Eles não têm líder. Não têm lembranças. São bravateiros, fofoqueiros e fingem ser os maiorais e estar sempre prestes a desempenhar grandes feitos na selva, mas é só uma noz cair no chão que desatam a rir e se esquecem de tudo. Nós da selva não queremos nada com eles. Não bebemos onde os macacos bebem, não vamos aonde os macacos vão, não caçamos onde eles caçam, não morremos onde eles morrem. Alguma vez você me ouvir falar do Bandar-log até hoje?
- Não — respondeu Mowgli num sussurro, pois a floresta ficou muito quieta quando Baloo terminou.
- O Povo da Selva os mantém longe das bocas e das cabeças. Eles são muitos, maus, sujos, despudorados e desejam, se é que se concentram em algum desejo, ter a atenção do Povo da Selva. Mas nós não prestamos atenção neles nem quando atiram nozes e porcarias em nossas cabeças.” (KIPLING, p. 54). Segundo: a motivação do Bandar-log em sequestrar Mowgli não era para ter a flor vermelha, isto é, o fogo, e se espalhar pela floresta, mas sim simplesmente ter a atenção do Povo da Selva e usar as engenhocas de Mowgli ao seu favor. Nesse trecho que se segue, vemos mais uma vez a incapacidade de terem um líder, por isso a impossibilidade de existir um Rei Louie, dentre outros defeitos bastante característicos do povo macaco:
“ […] Eles viviam no topo das árvores, e, como os bichos raramente olham para cima, os macacos e o Povo da Selva nunca se encontravam. […] Estavam sempre a um passo de ter um líder, suas próprias leis e seus costumes, mas nunca chegavam a fazê-lo, pois sua memória não durava de um dia para o outro […]. Nenhum dos bichos conseguia alcançá-los, mas, em compensação, nenhum dos bichos lhes dava atenção, e foi por isso que ficaram tão contentes quando Mowgli foi brincar com eles e ouviram como Baloo tinha ficado bravo.
Nunca aspiraram realizar coisa alguma — no fundo, o Bandar-log nunca aspira a nada -, mas um deles teve o que lhe pareceu uma ideia brilhante e contou os outros que Mowgli seria muito útil para a tribo, porque sabia amarrar gravetos para protegê-los do vento; então, se o capturassem, poderiam obrigá-lo a lhes ensinar como fazê-lo” (KIPLING, p. 55). O conto “A Caçada de Kaa” inicia-se com Baloo repassando algumas lições para Mowgli até perceber que ele esteve com o Povo Macaco. Durante um sermão (o diálogo citado acima que começa com “escute, filhote de homem”), Mowgli é sequestrado pelos macacos, Baloo e Bagheera tentam correr atrás dele, mas acabam pedindo ajuda a Kaa, como citado mais acima. A mudança na personalidade do Bandar-log, a criação de Rei Louie e a mudança no roteiro original da história no que toca à motivação do sequestro dos macacos é o pico do distanciamento entre o filme e sua obra inspiradora. No entanto, gostaria de confessar aqui que o Rei Louie era o meu personagem favorito na animação de 1967 e a musiquinha dele é realmente contagiante, haha! A motivação para manter o Rei Louie nessa versão do filme me parece mais uma demonstração de que trata-se de uma adaptação do filme da disney de 1967, e não da obra do Rudyard Kipling. A minha crítica em relação a permanência do Rei Louie é justamente por se tratar de uma das características do Bandar-log a falta de líder. No prefácio desta edição de Os Livros da Selva que tenho em mãos, o tradutor relata o simbolismo profundo por trás do Bandar-log, o que no filme ficou ofuscado, escondido e, ouso dizer, inexistente: “ Nessa estrutura social, há o nível mais baixo de todos. Nele estão justamente os parentes mais próximos dos humanos, considerados incapazes de aprimorar a organização interna de sua sociedade. Com evidente ironia, Kipling identifica o Povo Macaco com a antítese de um real esforço de construção do bem-estar coletivo. […]” (Apresentação, p. 10) o parágrafo segue-se citando o sermão de Baloo, também citado por mim acima várias vezes, aquele mesmo que começa com “escute, filhote de homem”, onde Baloo explicita com todas as letras. A cena terrível de Baloo praticando psicologia reversa em Mowgli para que ele pense que não é amado e parta para a vila dos homens de uma vez por todas é de revirar o estômago para todo leitor de Kipling. Baloo tem uma relação não apenas de amizade com Mowgli, mas também de respeito mútuo e servidão, visto que nos últimos contos Mowgli é visto como o Senhor da Selva por todos os animais, até mesmo o próprio Hathi, o mais antigo deles. Nos contos, Mowgli decide para a vila dos homens após perceber que não era mais bem-vindo na alcaeteia seeonee (isto porque Shere Khan influenciava os lobos menores e os atiçava contra Mowgli e, tendo seus pais morrido, somente Akela estava alí para interceder por ele, e sendo já um lobo idoso, não tinha muita voz contra os muitos lobos jovens fantoches do tigre), retornando apenas para dar um jeito no Shere Khan, que estava dominando a alcateia (eu vou chegar lá, calma!), e esta parte da obra também contém um simbolismo bastante profundo, mostrando a dualidade do homem entre seus instintos animais e sua civilidade que, de certa forma, acaba castrando estes mesmos instintos. Podemos interpretar de várias formas os dos “Mowglis” que aparecem nos contos de Kipling, como a dualidade presente no homem de sua razão e suas emoções, representados pelo Mowgli na Selva, sobrevivendo através de seus instintos, e o Mowgli na vila dos homens, submetido à fala dos homens, vivendo como homens nas regalias da tecnologia (não ipods ou tablets, e sim uma simples cama e uma cabana. Lembremos que tecnologia vem do grego techne, que significa arte, e logos, que significa ciência. O conceito significa, entre outros, técnica ou conjunto de técnicas de um domínio particular e/ou técnica ou conjunto de técnicas de um domínio particular). Toda essa reflexão acerca da dualidade do homem, dos dois mundos — a Selva e a vila dos homens -, tudo isso é omitido nos filmes. A cena de Mowgli na vila dos homens tem uma duração de menos de 30 segundos. O filme força mais uma batalha inexistente: desta vez, Baloo contra Shere Khan. Mais uma vez, essa luta não existe nos contos. Sendo Baloo um urso velho e gordo, muito embora seja o mestre da lei, não possui a competência de lutar com um tigre. Ele não caça, pois se alimenta de mel e plantas. A única cena de luta que existe na obra de Kipling envolvendo o urso se encontra no conto “A Caçada de Kaa”, quando ele ajuda a cobra e a pantera a lutar contra as centenas de milhares de macacos. À propósito, esta cena também foi omitida nos filmes, o que daria uma batalha épica, e substituída por uma cena estúpida onde Baloo bajula o inexistente Rei Louie para distrair os macacos. Mowgli prepara uma tocaia, já no fim do filme, utilizando suas engenhocas e a famosa flor vermelha para matar Shere Khan. Favreau, passou bem longe de novo! No conto “Tigre! Tigre!”, quando Mowgli se encontra na vila dos homens trabalhando como pastor de búfalos, ele usa destes búfalos para encurralar Shere Khan em um defiladeiro utilizando da ajuda do velho Akela e os lobos seus irmãos para tocar o búfalo contra Shere Khan. O tigre, que havia acabado de se alimentar e por isso estava preguiçoso e preferia não lutar, acabou caindo no desfiladeiro ou morrendo pisoteado (Kipling deixa a forma de morte de Shere Khan na ambiguidade). Outro detalhe que foi omitido nos filmes e possui um simbolismo profundo foi o fato de Mowgli ter retirado a pele do tigre e posta na Pedra do Conselho, onde o lobo alfa da alcateia se posta durante os Conselhos, o mesmo lugar onde Shere Khan estava quando dominava a alcateia na ausência de Mowgli. Podemos refletir bastante sobre o que isso pode significar, levando em conta que Shere Khan é a retratação do Mal na obra de Kipling. A representação de Shere Khan foi um dos dois personagens que, na minha opinião, mais se assemelharam aos originais. Mowgli dos livros é um garoto divertido, engenhoso, e ao mesmo tempo brincalhão e bastante curioso. Devido a sua educação, cresceu mais que as crianças da cidade e de uma forma mais forte e saudável. No filme, ele não passa de uma criança entre lobos; insegura, cabisbaixa e bastante incoveniente; não vemos nenhum relato explícito do humor de Mowgli, humor este que chega ao nível de fazer piadas com Kaa e o próprio Hathi, o Senhor da Selva. A mãe-loba de Mowgli teve uma boa representação, porém, senti falta do simbolismo do seu nome, Raksha, que em sânscrito significa “pedir proteção” e, ao mesmo tempo, no budismo trata-se de um demônio, que podemos interpretar como o instinto de proteção da mãe, inato e instintivo, presente em todas as espécies, e ao mesmo tempo, na sua qualidade implacável, forte e até mesmo cruel quando se trata de proteger seus filhos. O simbolismo da mãe loba foi omitido no filme, fazendo dela apenas mais uma personagem. Shere Khan é um tigre manco, e por isso somente mata gados (KIPLING, p. 29), característica essencial para a construção do personagem e também foi omitida no filme. Shere singifica tigre e khan significa chefe no idioma hindu e persa.
No mais, gostaria de reinterar, mais uma vez pois nunca é demais, que concordo com a opinião de que o cinema e literatura são linguagens diferentes e que devem ser respeitadas como o tal, mas, novamente, a partir de um momento que um filme possui a intenção e premissa de ser uma adptação cinematográfica, há coisas que devem ser levadas em conta somente por uma questão de ética e respeito para com a obra do autor. Novamente, deixo meus elogios à direção de arte do filme e qualidade de animação, mas no que toca ao roteiro e à adaptação, eu colocaria esse filme no topo da lista de frustrações, ao lado de Percy Jackson e o Ladrão de Raios. É um filme excelente para assistir com a família e as crianças certamente vão adorar. Lembrem-se, como diria Platão, uma vida sem criticas não vale á pena ser vivida. Forte abraço à todos.
Referências: KIPLING, R. Os Livros da Selva. trad. Alexandre Barbosa de Souza, Rodrigo Lacerda. Clássicos Zahar, SP: 2016.
Wallace Guilhereme. Contato: [[email protected]](mailto:[email protected])
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2020.03.24 05:59 hebreubolado Crítica de "Mogli - O Menino Lobo" (2016) do John Favreau.

Os Livros da Selva é uma coletânea de contos do universo criado por Rudyard Kipling (1865–1936). Os dois Livros somam o total de quinze contos. Este filme adapta (ou ao menos tenta adaptar) de uma forma bastante recortada alguns contos que têm Mowgli como protagonista (importante ressalvar que não são todos os contos de Os Livros da Selva que têm o menino lobo como protagonista, alguns sequer se passam na Selva, ex: A Foca Branca, conto de número 4 na edição Clássicos da Zahar). Eu percebi inspirações no conto “Os irmãos de Mowgli”, o primeiro do universo do Kipling, “A Caçada de Kaa”, que narra o sequestro de Mowgli pelo Bandar-logo, o Povo Macaco, e “Como surgiu o Medo”, o conto mais mitológico em minha opinião, que narra o período de seca da Selva que os animais chamam de Trégua da Água. Em minha crítica, irei estabelecer algumas comparações do filme com a obra original do Kipling com objetivo de defender a opinião de que: enquanto um filme de animação, é um filme muito bem produzido, dirigido e criado, porém, enquanto adaptação cinematográfica de uma obra literária, deixou tanto a desejar, de tal forma que me faz acreditar que trata-se mais de uma adaptação da animação da própria Disney de 1967 do Wolfgang Reitherman do que uma adaptação da obra de Kipling, como veremos mais à frente. Para estabelecer essas comparações, utilizarei o meu exemplar de Os Livros da Selva: contos de Mowgli e outras histórias, da editora Zahar, publicado no ano de 2016, traduzido por Alexandre Barbosa de Souza.
Nota IMPORTANTÍSSIMA: compreendo e sou da opinião de que cinema e literatura são artes distintas e que possuem linguagens diferentes; também concordo que nenhuma adaptação é 100% fiel à obra literária, nem mesmo o tão renomado O Senhor dos Anéis; porém, quando usa-se o nome de um autor como fonte e principalmente sua obra como inspiração, é necessário o devido respeito à propriedade intelectual e criadora, não somente por questões jurídicas, mas por questões éticas. Sob esta premissa, vamos às comparações.
ATENÇÃO: Como trata-se de uma análise do filme, recomendo que a crítica seja lida somente por pessoas que já assistiram o filme. Se você também leu o livro e é um admirador da obra do Kipling e do que ela representa, será uma leitura ainda mais profunda.
O filme tem uma animação muito bonita; não entendo de cinema em termos técnicos, mas sem dúvidas trata-se de uma película bastante agradável de se assistir. Fora a animação de altíssima qualidade, as cores, personagens e músicas fazem do filme bastante agradável de se ver e rápido de assistir também. Incomoda-me em um filme que possui uma proposta infantil (a recomendação aqui no Brasil é para maiores de 10 anos de idade) hajam os famigerados Jump-scare. Imagine você sentado na sala assistindo com seu filho uma cena do Mowgli em um pasto verde e calmo e de repente BAM! Um tigre salta de trás da tela rugindo e fazendo um estardalhaço enorme. O recurso de jump-scare é, até mesmo em filmes adultos como no gênero de terror e suspense, considerado um recurso de baixa qualidade e previsível. Contei ao todo dois jump-scares no filme.
Em uma das primeiras cenas do filme vemos Mowgli, já na idade de menino (idade esta que permanece durante todo o filme. No último conto do Kipling, “A Corrida da Primavera”, ele já possui dezessete anos), assistindo uma assembléia dos lobos, que discutem se sua presença na alcateia deve ou não ser tolerada. Aqui já podemos perceber uma mudança drástica na história original: nos livros, Mowgli simplesmente aparece onde a alcateia Seonee vive, não levado por Bagheera como no filme retrata um pouco mais a frente. Akela e o lobo que criou Mowgli são dois lobos diferentes, não o mesmo: este último aparece nos contos com o nome de Pai Lobo apenas. Akela em hindi significa solteiro, solitário, o que não faz sentido colocá-lo como pai de Mowgli e dono de uma família. A intimidação do tigre Shere Khan provoca aos lobos foge do nosso autor britânico da mesma forma: enquanto que no filme o tigre não apenas mata Akela com um único golpe mas domina toda o bando, nos livros ele é intimidado pelos caninos.
“[…] Shere Khan talvez tivesse enfrentado Pai Lobo, mas não desafiaria Mãe Loba, pois sabia que, ali onde estava, ela tinha a vantagem do terreno e lutaria até a morte. Por isso voltou atrás, rosnando ao deixar a boca da caverna […]” (KIPLING, p. 33).
Bagheera e Shere Khan travam uma batalha durante a escolta de Mowgli em retorno para a vila dos homens; nos livros, essa luta nunca aconteceu.
Ao encontrar com os elefantes, a pantera negra pede para que Mowgli se ajoelhe e o informa da importância desses terríveis elefantídeos na criação e manutenção da Selva. Esse aspecto deve ser parabenizado por ter sido incorporado no filme: Kipling retratou os elefantes como a força criadora da Selva, e sendo Hathi, O Silencioso, o mais antigo deles. Embora a curtíssima cena tenha deixado implícito a importância dos elefantes, senti falta do personagem de Hathi, que é de suma importância em todos os contos que ocorrem na Selva.
“[…] Quando Hathi, o elefante selvagem, que vive cem anos ou mais, viu uma longa e esguia faixa de rocha seca bem no meio do rio, entendeu que estava olhando para a Pedra da Paz e, na mesma hora, ergueu sua tromba e proclamou a Trégua da Água, como seu pai antes dele havia proclamado cinquenta anos atrás.” (KIPLING, p. 185).
“[…] Shere Khan foi embora sem ousar rosnar, pois sabia, assim como todo mundo, que, no final das contas, Hathi é o Senhor da Selva” (KIPLING, p. 191)”.
O antagonismo inexistente de Kaa: a temível Píton é apresentada no filme como uma vilã que, após revelar a história de Mowgli para ele, tenta devorá-lo. Este personagem também foi desconstruído e teve sua personalidade alterada, assim como vários outros, que comentarei mais à frente. Nos livros, a píton é vista como um animal sábio e astuto, mas que respeita Mowgli como o Senhor da Selva que ele se tornou. A primeira vez que ele é mencionado na obra é no conto “A Caçada de Kaa”, aquele citado mais acima, que retrata o sequestro de Mowgli. Percebendo sua incapacidade de perseguir o Bandar-Log, o Povo Macaco, Baloo e Bagheera decidem pedir ajuda à píton em troca de alguns cabritos. Após relembrar Kaa de que o Bandar-log costumava chamá-lo de perneta, minhoca amarela, a pantera e o urso acabam convencendo a píton a se unir à eles na caçada aos macacos para resgatar Mowgli. O antagonismo de Kaa no filme pode ter várias explicações (que infelizmente só nos seriam acessível diretamente pelo diretor ou roteirista), porém, me parece que colocar uma cobra como vilã é um reforço de um esteriótipo medíocre. A cobra malvada. Não, sr. Favreau, isto não existe no universo de Kipling. Muito embora astuto e um caçador destemível, Kaa não apenas ajuda nesse conto em específico como também em “Cão Vermelho”, quando auxilia Mowgli na batalha contra dos lobos contra os cães vermelhos, chamados de dholes (inclusive, é nesse conto que Akela morre devido à feridas causadas na batalha contra os dholes, diferentemente da sua morte estúpida no filme com uma só mordida de Shere Khan, o que nos demonstra uma ideia bastante frágil de um lobo alfa que deveria estar a frente de sua alcateia e portanto, se o mais forte entre todos os lobos. Akela morre com pelos brancos como neve, ressaltando sua idade avançadíssima). Neste conto, Kaa fornece a Mowgli ideias de como combater e sair em vantagem contra os dholes, além de protegê-lo no rio durante o seu percurso e ser também ativo no plano de Mowgli para emboscar os dholes na toca das abelhas, etc etc.
Nem é preciso informar que não, Baloo não salvou Mowgli de ser comido por Kaa em Os Livros da Selva. Ainda no primeiro conto, “Os irmãos de Mowgli”, o Conselho da Alcateia está decidindo o destino do filhote de homem. A Lei da Selva, código de ética e moral que rege a todos os povos livres com exceção do Bandar-log, intercede a favor de Mowgli:
“Pois bem, a Lei da Selva dispõe que, em caso de disputa do direito sobre um filhote a ser aceito pela alcateia, pelo menos dois membros, além do pai e da mãe, devem interceder ao seu favor.” (KIPLING, p. 35). Adivinhe quem fala por Mowgli além dos seus pais lobos? Isso mesmo. O velho Baloo, encarregado de ensinar a Lei da Selva para os filhotes, fala em nome do menino. Sendo assim, falta apenas mais um voto. Baloo era o único fora da alcateia que tinha direito de falar no Conselho; sendo assim, restava convencer um lobo entre a alcateia para que Mowgli fosse aceito.
Porém, não foi isso que aconteceu: Bagheera intercede e, não podendo votar por não ser parte da Alcateia Seonee, argumenta em cima da Lei da Selva:
“ — Ó Akela, ó Povo Livre — ronronou -, não tenho voto na assembléia de vocês, mas a Lei da Selva diz que, não se tratando de um caso de morte, se existe uma dúvida quanto a um novo filhote, a vida dele pode ser comprada por um certo preço. E a lei não diz nada sobre quem pode ou não pagar esse preço. Estou certo?
[…] — Agora, além do voto de Baloo, acrescento um touro, e um bem gordo, que acabei de matar a menos de um quilômetro daqui, para que o filhote de homem seja aceito de acordo com a lei. Seria possível?” (KIPLING, p. 35–36). Oferta esta que o Povo Livre aceitou prontamente. Concluímos, portanto, que Baloo não apenas conheceu Mowgli desde sua chegada na Alcateia Seonee, mas foi o responsável, junto com Bagheera, por sua aceitação na alcateia. Esta alteração no roteiro do filme pode ser explicada pelo fato de que a linguagem do cinema requer algo mais dinâmico e rápido que os detalhes da literatura. Foi a forma do Favreau contar como Mowgli chegou na Selva e introduzir Baloo no filme, dois coelhos em uma cajadada só, como dizem por aí.
“E foi assim que Mowgli entrou para a Alcateia dos Lobos de Seeonee, ai preço de um touro e graças às palavras favoráveis de Baloo.” (KIPLING, p. 37) A ausência nos filmes desse aspecto da história faz com que a obra tenha um déficit e deixe de retratar uma parte bastante importante nos contos de Kipling: as reflexões filosóficas por trás do conto, tais como: o valor de uma vida entre os lobos, o conceito de moralidade (certo e errado), o valor de um homem, a questão da Lei da Selva sendo usada na prática (o que no filme não passa de uns versos engraçados que são recitados em uma decoreba), etc.
A mudança da personalidade de Baloo no filme é o que mais me irrita nessa adaptação: nos contos de Kipling, Baloo é o professor da lei da selva, como citei mais acima, e no filme, quando ele pergunta a Mowgli se os lobos cantam, o menino responde negativamente e recita para ele a Lei da Selva (dialogo que acontece no minuto 40 do filme, aproximadamente) , Baloo responde “Aí, isso não é uma canção. É um monte de regra!” FAVREAU, AMADO??
Transformar o professor da Lei em um urso trapalhão reforça o fato de o filme ser uma adaptação do filme da Disney, como citei mais acima, e acabou empobrecendo o roteiro no que diz respeito aos conceitos profundíssimos que Kipling introduz através de Baloo, desde a importância da sociedade e união (no conto “A Caçada de Kaa”), as lições que acompanharam a educação do garoto desde que ele tinha entre onze e quinze anos e até mesmo os detalhes da própria Lei da Selva, que no filme os lobos simplesmente recitam aos quatro ventos, e nos contos é aprendida desde filhotinhos pela boca do próprio Baloo.
No conto “Tigre! Tigre!”, após Mowgli decidir sair da alcateia e ir para a vila dos homens, realmente Shere Khan influencia os filhotes e habita a Pedra do Conselho, como mostrado no filme, mas esse reinado sobre os lobos dura apenas algumas páginas, ao passo de que quando Mowgli retorna para a Selva (a sua estadia na vila dos homens também foi omitida no filme), acaba dando um jeito no tigre, mas isso trataremos mais a frente.
A cena de Mowgli salvando o filhote de elefante também não existe nos contos. Também me incomoda a incapacidade de falar dos elefantes, visto que todo bicho na selva, na obra de Kipling, tem essa capacidade. Os elefantes são inteligentes como todos os outros e seu líder, Hathi, como já dito mais acima, não apenas era o mais inteligente de todos, mas o verdadeiro Senhor da Selva e criador da própria.
As engenhocas de Mowgli realmente são importantes nos contos, como no filme mostra, mas a motivação do sequestro não foi a Flor Vermelha, tão desejada pelo Rei Louie. Essa cena é tão distante da obra e das intenções do Kipling que merece, mais que todas as outras, ser tratada com mais detalhes:
Primeiro, O REI LOUIE NÃO EXISTE! Uma das características mais importantes do Bandar-log é sua incapacidade de ser organizados socialmente, por isso não têm líder. No filme, criar um personagem e colocá-lo no cargo de líder do Bandar-log acaba desconfigurando o mesmo e também o desconstruindo, o que aconteceu aconteceu com vários personagens, como vimos acima.
“- Escute, filho de homem — rugiu o urso, e sua voz ressoou como o trovão numa noite quente. — Ensinei a você a Lei da Selva inteira, que vale para todos os Povos da Selva, menos para o Povo Macaco que vive nas árvores. Eles não têm lei. São marginais. Não têm fala própria, mas usam palavras roubadas que ouvem por aí enquanto espiam e esperam no alto dos galhos. Os costumes deles são diferentes dos nossos. Eles não têm líder. Não têm lembranças. São bravateiros, fofoqueiros e fingem ser os maiorais e estar sempre prestes a desempenhar grandes feitos na selva, mas é só uma noz cair no chão que desatam a rir e se esquecem de tudo. Nós da selva não queremos nada com eles. Não bebemos onde os macacos bebem, não vamos aonde os macacos vão, não caçamos onde eles caçam, não morremos onde eles morrem. Alguma vez você me ouvir falar do Bandar-log até hoje?
- Não — respondeu Mowgli num sussurro, pois a floresta ficou muito quieta quando Baloo terminou.
- O Povo da Selva os mantém longe das bocas e das cabeças. Eles são muitos, maus, sujos, despudorados e desejam, se é que se concentram em algum desejo, ter a atenção do Povo da Selva. Mas nós não prestamos atenção neles nem quando atiram nozes e porcarias em nossas cabeças.” (KIPLING, p. 54). Segundo: a motivação do Bandar-log em sequestrar Mowgli não era para ter a flor vermelha, isto é, o fogo, e se espalhar pela floresta, mas sim simplesmente ter a atenção do Povo da Selva e usar as engenhocas de Mowgli ao seu favor. Nesse trecho que se segue, vemos mais uma vez a incapacidade de terem um líder, por isso a impossibilidade de existir um Rei Louie, dentre outros defeitos bastante característicos do povo macaco:
“ […] Eles viviam no topo das árvores, e, como os bichos raramente olham para cima, os macacos e o Povo da Selva nunca se encontravam. […] Estavam sempre a um passo de ter um líder, suas próprias leis e seus costumes, mas nunca chegavam a fazê-lo, pois sua memória não durava de um dia para o outro […]. Nenhum dos bichos conseguia alcançá-los, mas, em compensação, nenhum dos bichos lhes dava atenção, e foi por isso que ficaram tão contentes quando Mowgli foi brincar com eles e ouviram como Baloo tinha ficado bravo.
Nunca aspiraram realizar coisa alguma — no fundo, o Bandar-log nunca aspira a nada -, mas um deles teve o que lhe pareceu uma ideia brilhante e contou os outros que Mowgli seria muito útil para a tribo, porque sabia amarrar gravetos para protegê-los do vento; então, se o capturassem, poderiam obrigá-lo a lhes ensinar como fazê-lo” (KIPLING, p. 55). O conto “A Caçada de Kaa” inicia-se com Baloo repassando algumas lições para Mowgli até perceber que ele esteve com o Povo Macaco. Durante um sermão (o diálogo citado acima que começa com “escute, filhote de homem”), Mowgli é sequestrado pelos macacos, Baloo e Bagheera tentam correr atrás dele, mas acabam pedindo ajuda a Kaa, como citado mais acima. A mudança na personalidade do Bandar-log, a criação de Rei Louie e a mudança no roteiro original da história no que toca à motivação do sequestro dos macacos é o pico do distanciamento entre o filme e sua obra inspiradora. No entanto, gostaria de confessar aqui que o Rei Louie era o meu personagem favorito na animação de 1967 e a musiquinha dele é realmente contagiante, haha! A motivação para manter o Rei Louie nessa versão do filme me parece mais uma demonstração de que trata-se de uma adaptação do filme da disney de 1967, e não da obra do Rudyard Kipling. A minha crítica em relação a permanência do Rei Louie é justamente por se tratar de uma das características do Bandar-log a falta de líder. No prefácio desta edição de Os Livros da Selva que tenho em mãos, o tradutor relata o simbolismo profundo por trás do Bandar-log, o que no filme ficou ofuscado, escondido e, ouso dizer, inexistente: “ Nessa estrutura social, há o nível mais baixo de todos. Nele estão justamente os parentes mais próximos dos humanos, considerados incapazes de aprimorar a organização interna de sua sociedade. Com evidente ironia, Kipling identifica o Povo Macaco com a antítese de um real esforço de construção do bem-estar coletivo. […]” (Apresentação, p. 10) o parágrafo segue-se citando o sermão de Baloo, também citado por mim acima várias vezes, aquele mesmo que começa com “escute, filhote de homem”, onde Baloo explicita com todas as letras. A cena terrível de Baloo praticando psicologia reversa em Mowgli para que ele pense que não é amado e parta para a vila dos homens de uma vez por todas é de revirar o estômago para todo leitor de Kipling. Baloo tem uma relação não apenas de amizade com Mowgli, mas também de respeito mútuo e servidão, visto que nos últimos contos Mowgli é visto como o Senhor da Selva por todos os animais, até mesmo o próprio Hathi, o mais antigo deles. Nos contos, Mowgli decide para a vila dos homens após perceber que não era mais bem-vindo na alcaeteia seeonee (isto porque Shere Khan influenciava os lobos menores e os atiçava contra Mowgli e, tendo seus pais morrido, somente Akela estava alí para interceder por ele, e sendo já um lobo idoso, não tinha muita voz contra os muitos lobos jovens fantoches do tigre), retornando apenas para dar um jeito no Shere Khan, que estava dominando a alcateia (eu vou chegar lá, calma!), e esta parte da obra também contém um simbolismo bastante profundo, mostrando a dualidade do homem entre seus instintos animais e sua civilidade que, de certa forma, acaba castrando estes mesmos instintos. Podemos interpretar de várias formas os dos “Mowglis” que aparecem nos contos de Kipling, como a dualidade presente no homem de sua razão e suas emoções, representados pelo Mowgli na Selva, sobrevivendo através de seus instintos, e o Mowgli na vila dos homens, submetido à fala dos homens, vivendo como homens nas regalias da tecnologia (não ipods ou tablets, e sim uma simples cama e uma cabana. Lembremos que tecnologia vem do grego techne, que significa arte, e logos, que significa ciência. O conceito significa, entre outros, técnica ou conjunto de técnicas de um domínio particular e/ou técnica ou conjunto de técnicas de um domínio particular). Toda essa reflexão acerca da dualidade do homem, dos dois mundos — a Selva e a vila dos homens -, tudo isso é omitido nos filmes. A cena de Mowgli na vila dos homens tem uma duração de menos de 30 segundos. O filme força mais uma batalha inexistente: desta vez, Baloo contra Shere Khan. Mais uma vez, essa luta não existe nos contos. Sendo Baloo um urso velho e gordo, muito embora seja o mestre da lei, não possui a competência de lutar com um tigre. Ele não caça, pois se alimenta de mel e plantas. A única cena de luta que existe na obra de Kipling envolvendo o urso se encontra no conto “A Caçada de Kaa”, quando ele ajuda a cobra e a pantera a lutar contra as centenas de milhares de macacos. À propósito, esta cena também foi omitida nos filmes, o que daria uma batalha épica, e substituída por uma cena estúpida onde Baloo bajula o inexistente Rei Louie para distrair os macacos. Mowgli prepara uma tocaia, já no fim do filme, utilizando suas engenhocas e a famosa flor vermelha para matar Shere Khan. Favreau, passou bem longe de novo! No conto “Tigre! Tigre!”, quando Mowgli se encontra na vila dos homens trabalhando como pastor de búfalos, ele usa destes búfalos para encurralar Shere Khan em um defiladeiro utilizando da ajuda do velho Akela e os lobos seus irmãos para tocar o búfalo contra Shere Khan. O tigre, que havia acabado de se alimentar e por isso estava preguiçoso e preferia não lutar, acabou caindo no desfiladeiro ou morrendo pisoteado (Kipling deixa a forma de morte de Shere Khan na ambiguidade). Outro detalhe que foi omitido nos filmes e possui um simbolismo profundo foi o fato de Mowgli ter retirado a pele do tigre e posta na Pedra do Conselho, onde o lobo alfa da alcateia se posta durante os Conselhos, o mesmo lugar onde Shere Khan estava quando dominava a alcateia na ausência de Mowgli. Podemos refletir bastante sobre o que isso pode significar, levando em conta que Shere Khan é a retratação do Mal na obra de Kipling. A representação de Shere Khan foi um dos dois personagens que, na minha opinião, mais se assemelharam aos originais. Mowgli dos livros é um garoto divertido, engenhoso, e ao mesmo tempo brincalhão e bastante curioso. Devido a sua educação, cresceu mais que as crianças da cidade e de uma forma mais forte e saudável. No filme, ele não passa de uma criança entre lobos; insegura, cabisbaixa e bastante incoveniente; não vemos nenhum relato explícito do humor de Mowgli, humor este que chega ao nível de fazer piadas com Kaa e o próprio Hathi, o Senhor da Selva. A mãe-loba de Mowgli teve uma boa representação, porém, senti falta do simbolismo do seu nome, Raksha, que em sânscrito significa “pedir proteção” e, ao mesmo tempo, no budismo trata-se de um demônio, que podemos interpretar como o instinto de proteção da mãe, inato e instintivo, presente em todas as espécies, e ao mesmo tempo, na sua qualidade implacável, forte e até mesmo cruel quando se trata de proteger seus filhos. O simbolismo da mãe loba foi omitido no filme, fazendo dela apenas mais uma personagem. Shere Khan é um tigre manco, e por isso somente mata gados (KIPLING, p. 29), característica essencial para a construção do personagem e também foi omitida no filme. Shere singifica tigre e khan significa chefe no idioma hindu e persa.
No mais, gostaria de reinterar, mais uma vez pois nunca é demais, que concordo com a opinião de que o cinema e literatura são linguagens diferentes e que devem ser respeitadas como o tal, mas, novamente, a partir de um momento que um filme possui a intenção e premissa de ser uma adptação cinematográfica, há coisas que devem ser levadas em conta somente por uma questão de ética e respeito para com a obra do autor. Novamente, deixo meus elogios à direção de arte do filme e qualidade de animação, mas no que toca ao roteiro e à adaptação, eu colocaria esse filme no topo da lista de frustrações, ao lado de Percy Jackson e o Ladrão de Raios. É um filme excelente para assistir com a família e as crianças certamente vão adorar. Lembrem-se, como diria Platão, uma vida sem criticas não vale á pena ser vivida. Forte abraço à todos.
Wallace Guilhereme. Contato: [[email protected]](mailto:[email protected])
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2019.03.04 00:14 Manner1918 Nação Livre Brasileira

-Contexto: Estou escrevendo este livro por causa de um devaneio. Estou procurando criticas tanto positivas quanto negativas sobre esta escrita.Para ter um contexto geral antes da leitura, esse livro se passa em um mundo alternativo onde a Alemanha ganhou a Segunda Guerra Mundial, os nazistas também invadiram o Brasil e a tornaram em um estado fantoche a serviço da Alemanha.
Ainda não fiz nenhuma personagem no livro explicar sobre esse evento, ou como eles ganharam a guerra, mas já tenho as ideias principais anotadas em um caderno e tudo vai ser bem explicado. Se você tiver qualquer dúvida sobre o porque eu não dei muitos detalhes sobre qualquer coisa (a casa, as características de personagens, roupas, etc) é porque eu decidi não explicar no momento que a cena acontece, mas vou detalhando sobre tudo ao decorrer do livro.
-Importante: Só estou postando o primeiro capitulo do livro, apesar de ser mais de 3000 palavras. Já escrevi o inicio do segundo capitulo, mas está incompleto.Sinto muito por qualquer erro de português. E sinto muito por ser longo, mas vamos ao inicio do livro:


Eram cinco da manhã, Amélia tinha passado a noite acordada já que sua insônia tinha lhe mantida acordada novamente. Ela virava de um lado para outro na cama, agitava seu cabelo negro e liso que vinha até seus ombros, girava e apalpava seu travesseiro, tentando conseguir dormir ao mínimo alguns minutos. Mas foi tudo em vão e logo ela começava a pensar, enquanto desistia de culpar a sua cama pela insônia, pensava sobre como ela ainda não tinha um pingo de sono e enquanto olhava para o teto de seu quarto, pensava novamente em seus avós, como toda manhã, e como ela sentia saudades deles, de suas risadas, conselhos, puxadas de orelhas e, sobretudo, o cheiro do bolo de chocolate que seu avô fazia enquanto ela escutava as músicas que sua avó ouvia enquanto alimentava seus belíssimos pássaros. A sua avó adorava pássaros, e ela os tinha de todas as cores e espécies que ela poderia se lembrar, ela se lembrava do periquito azul, do canário amarelo, da calopsita cinza, da andorinha branca e um pássaro peculiar que parecia um pequeno pavão, da qual Amélia adorava como parte de sua família e até nomeará o pequeno pássaro como Fênix.
Os avós de Amélia tinham saído do país para viajar, isso de acordo com seus pais que tinham recebido uma carta no mês passado, na carta eles citam que iriam para um lugar muito longe e muito bonito, para Amélia, este lugar só poderia estar cheio de pássaros e bolos de chocolate. Mas, ao se tocar da realidade, ela cortou o seu sorriso da cara ao lembrar que eles nunca escreveram novamente, nem mesmo uma carta ou cartão postal. Ela pensava se tinha feito algo de errado antes deles partirem, talvez tenha sido o quadro do vovô que ela tinha derrubado ao brincar de astronauta no quarto de seus avós, ou talvez o vovô tenha ficado bravo com ela por ela derrubar o fermento, fazendo que o bolo do vovô não tenha crescido, ou poderia ter sido a gota d’água ela ter desligado a música da vovó acidentalmente em seu aniversário de seis anos. Ou talvez ela não era uma boa ouvinte dos conselhos, talvez ela nem merecesse os ouvir, ela não se sentia corajosa como sua avó, ou astuta como seu avô, pensando bem, ela não se sentia nem forte, nem observadora, ou dedicada, focada, e até mesmo inteligente como seus avós. Como toda manhã, ela pensava novamente em outro e novo motivo que poderia justificar a viajem e a não comunicação com ela por parte de seus avós, e hoje, ela pensava que poderia ser a sua gula, talvez se ela não tivesse pedido mais um pedaço de bolo no aniversário de oito anos, eles poderiam ter ficado.
Em todos estes pensamentos, ela notou que seus pais finalmente acordaram, na noite passada eles combinaram de acordar mais cedo para se arrumarem, ela se sentia sozinha com seus pensamentos a noite inteira por causa de sua insônia, ela vira para seu relógio de pilha que marcava seis em ponto, em breve ela teria que ir rapidamente a rua na frente de sua casa, precisando estar com cabelo e roupas arrumadas, e portando um sentimento de foco, força e determinação. Ela sentia dificuldade em todas as etapas, como iria arrumar o cabelo se ele sempre ficava mais alto na parte direita?, como iria arrumar a sua roupa, se ela se sentia desconfortável com a calça e o tênis verdes?, ela odiava os tênis verdes, como iria se levantar com foco, se quando levantava o sono lhe atacava com seus grilhões fortes? como iria sentir força se ela era tão magra em comparação aos seus pais e avós? E, como iria se sentir determinada, se ela deveria ser o motivo para seus avós partirem em uma viajem para outro país que parecia durar para sempre? As seis e quinze, o relógio despertava, ela conseguia ouvir o bairro inteiro se levantando em um pulo, ela queria ter essa força de vontade como os outros, principalmente a força de vontade de seu vizinho que ela nunca virá ficar triste ou desanimado, quem conseguia ficar animado de manhã? Ela pensava consigo mesma. Finalmente, seus pais batem na porta de seu quarto.
-Vamos logo Amélia, não se perca no horário novamente mocinha.
Dizia o seu pai, quase gritando. Ela tinha perdido o horário no dia anterior e enfureceu o seu pai e ela teve que ficar sem ler a parte do jornal que continha as tirinhas que ela adorava, do Capitão Hound, ela não queria perder mais um dia de suas aventuras no espaço. Levantando em seu ritmo e motivada pelas tirinhas que iria ler no fim do dia, pegou em seu armário as suas roupas e as vestiu sem ligar a luz de seu quarto, ela então olhava no espelho e tentava seu arrumar o máximo possível para não desapontar seus pais e finalmente sai do quarto e vai de encontro aos seus pais na sala de estar, ela via o seu pai terminando de se arrumar, ele tinha comprado uma gravata nova após tanto reclamar por falta de uma por quase um mês inteirinho, e reclamava por sempre estar passando vergonha na frente de seus vizinhos que tinham uma gravata nova quase toda semana, mas, dessa vez, ele iria impressionar com a gravata marrom escura de veludo nova, que combinava com seus cabelos e olhos castanhos, mas não tanto com a barba, pensava Amélia. Sua mãe estava otimista com seu cabelo, eles eram cacheados e escuros e todo dia pareciam ser diferentes após o banho e quase nunca à agradavam, mas hoje ela estava contente com o resultado que havia conseguido. O pai de Amélia checava em seu relógio de pulso a cada segundo para estar na rua de sua casa na hora certa, andava de um lado para outro em frente a porta, confiante com sua gravata de veludo.
-Eu sempre fico ansioso, não importa quantas vezes eu faça, ou quão pronto eu esteja, ou acho que esteja. Disse o pai de Amélia sem parar um segundo para respirar.
-Acho que nós já se acostumamos, a Amélia já está aqui e não irá cometer o erro de ontem, aquilo foi um show de horror. Sua mãe falava enquanto arrumava os seus brincos e olhando para a televisão em estática.
-Eu já pedi desculpas, eu só estava pensando no vovô e na vovó novamente e me atrasei, já chegou alguma carta deles mamãe? Amélia sempre tinha um pingo de esperança pela manhã, em que sua mãe lhe diria que havia chegado uma carta de seus avós.
-Já lhe disse para não comentar sobre seus avós, vamos deixar eles aproveitarem a viajem, também não podemos enviar cartas a eles, não sabemos o endereço correto e não podemos fica-
Enquanto sua mãe falava, seu pai a interrompe com um gesto de corte com a mão, e querendo desligar o assunto dos pais de sua esposa, que ele não gostava tanto por um motivo que Amélia não sabia.
-Pedir desculpas não adianta, o que move o nosso país e o mundo são ações, não palavras, você sabe muito bem mocinha, já lhe contamos essa história um milhão de vezes, não precisamos te falar o quão importante é que você sempre esteja na hora, esteja com foco, força e...
-Determinação. Completava Amélia a frase de seu pai com a cabeça baixa, olhando para os seus tênis verdes que tanto odiava.
-Agora, vamos continuar esperando a hora certa, a televisão já está no volume máximo, se o relógio não funcionar, temos a televi... – A fala de seu pai é cortada pelo despertador do relógio de pulso, mostrando que de fato eram sete horas da manhã, ele então desliga o despertador e abre a porta de sua casa com um grande sorriso no rosto, que, para ele mostrava sua força e determinação para continuar o dia e estar na hora exata todo dia seria uma grande demonstração de foco e ele se orgulhava nisso. Sua mãe acompanhou o marido enquanto puxava Amélia pelo ombro para lhe seguir, sua mãe sempre estava de cabeça erguida as sete da manhã, isto mostrava sua determinação, estar com sua filha mostrava o seu foco como mãe, já a sua força era refletida na saúde total de seu marido e sua filha. Amélia sentia que por conseguir levantar de manhã e não desmaiar de sono, era seu foco, aguentar seus pais com esses horários era sua força e, conseguir andar parecendo ridícula com aqueles tênis verdes, eram sua determinação.
Finalmente, os homens de cada casa começavam a elevar a bandeira nos mastros que todas as casas tinham exatamente alinhada, uma bandeira verde, amarela, com um círculo azul no meio e uma grande suástica branca com bordas pretas no meio desse círculo e dentro da suástica possuía em preto a frase “Foco, Força e Determinação”. Com a bandeira no topo, todos levantavam seus braços direitos em direção a bandeira e começavam a cantar o Hino da Nação Livre Brasileira.
Enquanto Amélia cantava o hino, acompanhando o ritmo do hino que estava sendo tocado na televisão da maioria das casas e nas rádios das outras casas, ela olhava ao seu redor, via que todos nunca tiravam os olhos da bandeira, não piscavam ou sequer moviam seus braços estendidos, e se questionava se ela também deveria estar sempre assim, mas ela não aguentava mais estar de pé cedo todos os dias, mesmo que sua insônia lhe mantivesse acordada a noite inteira. Ela olhava o seu vizinho que nunca virá ficar triste, um menino mais velho que Amélia, de cabelos curtos, lisos e loiros, chamado de Arthur Von Müller Hoff Braun, e ele, como toda sua família se orgulhava imensamente de ser totalmente alemão, o pai de Amélia tinha feito uma amizade quase duradoura com essa família. Já do outro lado da rua, ela via diversas crianças quase da mesma idade que ela, mas ela não tinha conhecimento de quase ninguém, ela tentava imaginar os nomes dessas crianças, do que elas gostavam de comer aos Sábados, se elas gostavam de bolo de chocolate, como deveria ser o quarto delas, imaginava se eles tinham uma televisão em casa ou um rádio, de quais desenhos eles mais gostavam, se eles eram alemães, ou italianos, japoneses ou brasileiros e, pensava também como os tênis de outras crianças eram incrivelmente mais legais do que os dela e ainda por cima, pareciam muito mais confortáveis do que os tênis verdes dela. No meio dessas famílias desconhecidas, ela via a sua única amiga da escola, uma menina de cabelos escuros e olhos claros, chamada de Rúbia, Amélia adorava esse nome, por achar muito diferente do que todos que já tinha ouvido na vida e, diferentemente das outras crianças, ela sabia quase tudo sobre Rúbia, começando pelo nome, o que ela gostava de comer aos Sábados, se ela tinha uma televisão, quais desenhos ela gostava e tudo mais. Rúbia não vinha de uma família muito rica, ela tinha exatamente tudo para ter uma boa vida, mas não tinham uma televisão, o que o pai de Amélia achava estranho e dizia que era algo que somente pessoas pobres e sem cultura não teriam uma televisão em casa, mas, a família de Rúbia tinha um rádio que precisava ser ligado em uma tomada, esse rádio não era um orgulho dos pais de Rúbia, mas Amélia achava o rádio incrível, por ser grande, quase do seu tamanho e não precisar comprar pilas quase toda semana, o que ela achava uma inconveniência enorme, além de ser muito bonito por ter um pedaço feito com couro de verdade, apesar de Amélia não saber exatamente de onde o couro vinha. Amélia tinha conhecido Rúbia após precisar de ajuda em História da Alemanha no segundo ano da escola, Rúbia ajudou Amélia em quase todos os aspectos da história alemã e ambas conseguiram notas máximas na última prova do ano escolar e, desde então, ficaram amigas para “todo mundo, para sempre e adiante”, como Amélia sempre dizia.
O hino tinha finalmente acabado, todas as famílias iam para dentro de casa após dobrar a bandeira, o pai de Amélia andava de peito estufado para que todos olhassem a sua gravata de veludo, enquanto ele ia retirar a bandeira para a hastear no próximo dia, já sua mãe foi em direção da família dos Von Müller para conseguir se atualizar nas conversas, já que no dia anterior não conseguiram conversar por causa do atraso de Amélia para cantar o hino nacional. Amélia estava ajudando o seu pai a retirar e dobrar a bandeira do Brasil.
-Filha, por favor, tente manter contato visual com a bandeira, você sabe que todo mundo faz isto.Dizia o seu pai quase sussurrando para Amélia.
-Eu... estava só olhando ao redor, a bandeira não ia sair dali pai. Você nunca fez isto quando criança?
-Se fiz, fui repreendido pelos meus pais, o mesmo que estou fazendo com você. Então eu espero que você siga o meu caminho e me obedeça. Amanhã olhe diretamente para a bandeira e não tire seus olhos dela, fui claro mocinha?
-Tudo bem pai, sinto muito. Disse Amélia com um tom deprimido, olhando novamente para seus tênis verdes. Ela imaginava se deveria contar ao seu pai que o tamanho que ele comprará estava errado, ou se ela deveria aguentar até o próximo ano, quando seu pai poderia comprar-lhe outro tênis, seu pai tinha guardado dinheiro para comprar a Amélia um tênis da marca Griffin, considerado um dos melhores de acordo com o programa de moda alemã que sua mãe tinha visto no ano anterior. Talvez seu pai fosse brigar com ela ou dizer que ela está maluca por não gostar de um tênis tão caro e de marca alemã. Com isto em mente, ela decidiu não falar nada para seu pai, e pensava que no ano seguinte, ele iria lhe comprar um tênis melhor, apesar que tinha medo que seu pai comprasse novamente um tênis que não lhe serviria.
Ela tinha terminado de ajudar seu pai com a bandeira, guardando-a em uma caixa de madeira ao lado da caixa de correio, e em um piscar de olhos seu pai foi para dentro de casa se arrumar para o trabalho e, se conseguisse se arrumar rápido ele conseguiria ver o noticiário da manhã que iria começar as sete e meia da manhã, exatamente a hora em que o hino nacional iria parar de tocar nas televisões e nas rádios. Amélia decide entrar em casa e checar novamente seu material escolar antes da aula, seria a terceira vez que iria fazer isso, já que, de madrugada ela tinha checado duas vezes por não conseguir dormir. Ela conta quantos lápis possui, quantas canetas, até tentou contar quantas folhas tinham em seu livro didático e em seu caderno, mas desistiu quando a contagem chegou a cinquenta e sete e meio, já que ela tinha rasgado uma página do seu caderno no meio para poder desenhar o Capitão Hound e ela juntos em uma aventura longe da sua casa, longe do bairro, longe da escola, longe do Brasil, longe de tudo e todos; Quanto Rúbia viu o desenho, pediu para estar junto com ela, Rúbia admirava os desenhos que Amélia conseguia fazer, ela tinha guardado em casa um desenho de Amélia, sobre uma noite estrelada dentro dos olhos de Rúbia. O desenho com ela, Rúbia e o Capitão Hound estava guardado perto do espelho de seu armário marrom, onde ela poderia ver toda manhã.
Ela escutou o som do jornal sendo jogado contra à porta, ela estava animada para poder ler o quadrinho novo do Capitão Hound, mas sabia que só poderia ler quando seu pai terminasse de ler todas as notícias, o que só acontecia ao anoitecer, mas ela não se importava com isso, porque ela sabia que o Capitão Hound estaria ali a noite para conceder uma proteção vinda do espaço e além. Ela saiu de seu quarto para o corredor, sua mãe ainda não tinha voltado para casa, com certeza a conversa com a vizinha deveria estar muito emocionante, ela pensou consigo mesma. Seu pai veio logo em seguida arrumando uma gravata antiga que ele possuía, com certeza ele só utilizaria a gravata de veludo na hora do hino, ou talvez em alguma outra ocasião importante, como quando sua mãe faria Schnitzel em algum jantar futuro, o pai de Amélia amava Schnitzel, ele abriu a porta da frente e pegou o jornal acenando para alguns vizinhos que estavam na rua, ele logo entrou em casa e guardou o jornal no topo do armário da sala, onde Amélia não alcançava de jeito algum, e ela tinha parado de tentar quando quase quebrou o braço se equilibrando em uma cadeira, querendo mostrar as tirinhas para Rúbia em uma tarde de Sábado. Seu pai então se sentou no sofá da sala e começou a ver o noticiário da manhã, ela se sentou no chão em cima do tapete branco e felpudo para esperar os desenhos as oito da manhã. Ela estava lá em corpo, mas sua mente sempre estava fervendo com novos pensamentos, ela se imaginava comendo novamente um bolo de chocolate de seu avô e vendo o álbum de fotos da vovó, que ela nunca tinha visto por completo, já que sempre começavam a ver tudo novamente toda vez que iam ver as fotos no fim da tarde, e na metade do álbum seu pai sempre chegava para lhe trazer para casa, a vovó sempre tinha histórias novas para contar, mesmo que as fotos eram as mesmas, apesar de Amélia não entender muito bem sobre o que a vovó falava, um tempo em que você não precisava acordar de manhã para cantar o hino, um tempo em que você não tinha toque de recolher, um tempo com o que a vovó chamava de liberdade. O que a vovó queria dizer com liberdade? Amélia nunca tinha visto algo além de sua casa, sua rua, sua escola, a casa de seus avós e o espaço sideral com o Capitão Hound. O pensamento de Amélia foi puxado de novo para o presente quando ela ouviu a televisão dar um alto som do noticiário, e um grito de espanto do papai.
-MINHA NOSSA. Gritou o pai de Amélia.
-Caros telespectadores, é com pesar que anunciamos um ataque terrorista novamente perto da Capital, os terroristas plantaram uma bomba na Praça da Liberdade e acabaram matando dois estudantes da Juventude Hitlerista e um político de alta patente que o nome não será relevado para maior segurança de seus familiares. Estes terroristas são inimigos declarados do Reich e do Brasil Livre, mantenham seus olhos abertos, seus vizinhos podem ser inimigos da nossa nação e da nação alemã, não se esqueçam de denunciar a qualquer autoridade sobre atividades suspeitas ligadas a terrorismo e ligações com tentativas de criar o fim da liberdade de nosso povo e da nossa grande nação. O nosso grande líder Heinrich Hitler II, fará um pronunciamento para a o Reich Alemão devido ao alto número de terroristas nesse ano, este pronunciamento irá ocorrer com intenção de unir a nossa grande nação em uma só causa. O pronunciamento será transmitido as oito da noite, no programa ReichZeit, ou Hora do Reich.Traremos mais notícias sobre o incidente assim que tivermos quaisquer novidades. Voltamos a programação normal. Heil Hitler.
Amélia só tinha visto aquele repórter uma vez na televisão, mas ela sabia que quando ele aparecia não era uma boa notícia, e o seu pai tinha sempre grandes ataques de ansiedade com notícias fortes e alarmantes. Enquanto o repórter falava, imagens da Praça da Liberdade eram mostradas, apesar de Amélia nunca ter visto a praça antes, ela sabia que não era daquele modo que deveria estar, com fogo, ruínas e ambulâncias por todo lado.
-Minha nossa, eu não posso acreditar que ocorreu novamente, deve ser a quinta ou sexta vez que está acontecendo isto. Como isto está acontecendo, como pode estar acontecendo? Meus vizinhos podem ser inimigos? Não só inimigos da nação, mas inimigos da minha liberdade e da minha família. Eu tenho que pensar em algo para me proteger e para proteger minha família. Como... quando, eu, posso fazer algo.... eu teria que, bem, eu posso tentar, não, é impossível... só se eu fizer aquilo, mas não, não posso e nem deveria.Seu pai dizia sem piscar ou respirar, a sua ansiedade estava altíssima.
A mãe de Amélia entra na casa correndo, ela deveria ter visto o mesmo noticiário da casa dos Von Müller. Ela se acalma e respira fundo e nota que seu marido está andando de um lado para outro sem parar.
-Acalme-se Luís, com certeza teremos uma repercussão alta pelo pronunciamento do Führer. Ele vai ajeitar tudo. Nós temos que acreditar na nação. Não podemos perder a cabeça, estamos aqui e juntos iremos passar por qualquer situação.A mãe de Amélia conseguira fazer o marido sentar um instante para respirar.
Amélia não conseguia entender a situação completamente, ela sabia quem era o Führer, mas não entendia como os terroristas agiam, ou porque agiam deste modo, ou quem eram. O repórter havia dito que seus vizinhos poderiam ser inimigos, mas como poderiam? Rúbia era sua amiga para todo mundo, para sempre e adiante. E Arthur era inofensivo, um pouco chato, mas inofensivo sem dúvidas, uma vez ela pisou no sapato dele sem querer e ele que pediu desculpas a Amélia. E no fundo, ela se perguntava se esses ditos “terroristas” iriam gostar do bolo de chocolate do seu avô.

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